PTHistórias sem dataMachado de Assis

ПОРТУГАЛЬСЬКА · 1884

Histórias sem data

Machado de Assis (1839–1908)

  • Складність: Середня
  • 51 404 слів
  • 17 розділів
  • ≈ 5 год читання

Збірка оповідань Машаду де Ассіса: диявол відкриває власну церкву, лікар лікує від боргів, а сіамський король міняється душею з коханою. Дотепні історії про людські слабкості від найкращого бразильського письменника. Кожне оповідання можна прочитати за один вечір.

Зміст

  1. A egreja do Diabo
  2. O lapso
  3. Ultimo capitulo
  4. Cantiga de esponsaes
  5. Singular occurrencia
  6. Galeria posthuma
  7. Capitulo dos chapéos
  8. Conto alexandrino
  9. Primas de Sapucaia!
  10. Uma senhora
  11. Anecdota pecuniaria
  12. Fulano
  13. A segunda vida
  14. Manuscrito de um sachristão
  15. Ex cathedra
  16. A senhora do Galvão
  17. As academias de Sião

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A egreja do Diabo

DE UMA IDÉA MIRIFICA

Conta um velho manuscripto benedictino que o Diabo, em certo dia, teve a idéa de fundar uma egreja. Embora os seus lucros fossem continuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde seculos, sem organisação, sem regras, sem canones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obsequios humanos. Nada fixo, nada regular. Porque não teria elle a sua egreja? Uma egreja do Diabo era o meio efficaz de combater as outras religiões, e destruil-as de uma vez.

—Vá, pois, uma egreja, concluiu elle. Escriptura contra Escriptura, breviario contra breviario. Terei a minha missa, com vinho e pão á farta, as minhas predicas, bullas, novenas e todo o demais apparelho ecclesiastico. O meu credo será o nucleo universal dos espiritos, a minha egreja uma tenda de Abrahão. E depois, emquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha egreja será unica; não acharei diante de mim, nem Mahomet, nem Luthero. Ha muitos modos de affirmar; ha só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnifico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para communicar-lhe a idéa, e desafial-o; levantou os olhos, accesos de odio, asperos de vingança, e disse comsigo:—Vamos, é tempo. E rapido, batendo as azas, com tal estrondo que abalou todas as provincias do abysmo, arrancou da sombra para o infinito azul.

ENTRE DEUS E DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os seraphins que engrinaldavam o recem chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar á entrada com os olhos no Senhor.

—Que me queres tu? perguntou este.

—Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do seculo e dos seculos.

—Explica-te.

—Senhor, a explicação é facil; mas permitti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor logar, mandai que as mais afinadas citharas e alaúdes o recebam com os mais divinos córos...

—Sabes o que elle fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

—Não, mas provavelmente é dos ultimos que virão ter comvosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vasia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma egreja. Estou cançado da minha desorganisação, do meu reinado casual e adventicio. É tempo de obter a victoria final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não accuseis de dissimulação... Boa idéa, não vos parece?

—Vieste dizel-a, não legitimal-a, advertiu o Senhor.

—Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor proprio gosta de ouvir o applauso dos mestres. Verdade é que n'este caso seria o applauso de um mestre vencido, e uma tal exigencia... Senhor, desço a terra; vou largar a minha pedra fundamental.

—Vai.

—Quereis que venha annunciar-vos o remate da obra?

—Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cançado ha tanto da tua desorganisação, só agora pensaste em fundar uma egreja?

Diabo sorriu com certo ar de escarneo e triumpho. Tinha alguma idéa cruel no espirito, algum reparo picante no alforge da memoria, qualquer cousa que, n'esse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao proprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

—Só agora conclui uma observação, começada desde alguns seculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande numero comparaveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxal-as por essa franja, e trazel-as todas para minha egreja; atraz d'ellas virão as de seda pura...

—Velho rhetorico! murmurou o Senhor.

—Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupillas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do peccado. Vêde o ardor,—a indifferença, ao menos,—com que esse cavalheiro põe em lettras publicas os beneficios que liberalmente espalha,—ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaesquer d'essas materias necessarias á vida... Mas não quero parecer que me detenho em cousas miudas; não fallo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma commenda... Vou a negocios mais altos...

N'isto os seraphins agitaram as azas pesadas de fastio e somno. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de supplica. Deus interrompeu o Diabo.

—Tu és vulgar, que é o peior que póde acontecer a um espirito da tua especie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assumpto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assumpto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os signaes vivos do tedio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que elle fez?

—Já vos disse que não.

—Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufragio, ia salvar-se n'uma taboa; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a taboa de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum publico: a agua e o céu por cima. Onde achas ahi a franja de algodão?

—Senhor, eu sou, como sabeis, o espirito que nega.

—Negas esta morte?

—Nego tudo. A misanthropia póde tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misanthropo, é realmente aborrecel-os...

—Rhetorico e subtil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua egreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impuzera-lhe silencio; os seraphins, a um signal divino, encheram o céu com as harmonias de seus canticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as azas, e, como um raio, caiu na terra.

A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula benedictina, como habito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinaria, com uma voz que reboava nas entranhas do seculo. Elle promettia aos seus discipulos e fieis as delicias da terra, todas as glorias, os deleites mais intimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para rectificar a noção que os homens tinham d'elle e desmentir as historias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

—Sim, sou o Diabo, repetia elle; não o Diabo das noites sulphureas, dos contos somniferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e unico, o proprio genio da natureza, a que se deu aquelle nome para arredal-o do coração dos homens. Vêde-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai d'aquelle nome, inventado para meu desdouro, fazei d'elle um trophéu e um labaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...

Era assim que fallava, a principio, para excitar o enthusiasmo, espertar os indifferentes, congregar, em summa, as multidões ao pé de si. E ellas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na bocca de um espirito de negação. Isso quanto á substancia, porque, ácerca da fórma, era umas vezes subtil, outras cynica e deslavada.

Clamava elle que as virtudes aceitas deviam ser substituidas por outras, que eram as naturaes e legitimas. A soberba, a luxuria, a preguiça foram rehabilitadas, e assim tambem a avareza, que declarou não ser mais do que a mãi da economia, com a differença que a mãi era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defeza na existencia de Homero; sem o furor de Achilles, não haveria a Illiada: «Musa, canta a colera de Achilles, filho de Peleu...» O mesmo disse da gula, que produziu as melhores paginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hyssope; virtude tão superior, que ninguem se lembra das batalhas de Lucullo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez immortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem litteraria ou historica, para só mostrar o valor intrinseco d'aquella virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na bocca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os máus boccados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo promettia substituir a vinha do Senhor, expressão metaphorica, pela vinha do Diabo, locução directa e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fructo das mais bellas cepas do mundo. Quanto á inveja, prégou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a supprir todas as outras, e ao proprio talento.

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