PTContos para a infânciaGuerra Junqueiro (ed.)

PORTUGUESE · 1877

Contos para a infância

Guerra Junqueiro (ed.) (1850–1923)

  • Level: Easy
  • 28,587 words
  • 44 chapters
  • ≈ 3 h of reading

Short children’s tales and parables collected from the best authors by the Portuguese poet Guerra Junqueiro. Each story is a page or two, with a simple plot and a moral. It uses nineteenth-century spelling, but the language is simple.

Contents

  1. A mãe
  2. O ouro
  3. Doçura e bondade
  4. O malmequer
  5. Não quero
  6. Piloto
  7. O rico e o pobre
  8. Como um camponez aprendeu o Padre Nosso
  9. O talisman
  10. A alma
  11. Alberto
  12. A canção da cerejeira
  13. Os gigantes da montanha e os anões da planicie
  14. A creança, a anjo e flôr
  15. Presente por presente
  16. O pinheiro ambicioso
  17. Perfeição das obras de Deus
  18. João e os seus camaradas
  19. O rabequista
  20. Os pecegos
  21. A urna das lagrimas
  22. Reconhecimento e ingratidão
  23. O fato novo do sultão
  24. Boa sentença
  25. Os animaes agradecidos
  26. O ermitão
  27. Carlos Magno e o abade de S. Gall
  28. A boneca
  29. Inconveniente da riqueza
  30. Querer é poder

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A mãe

Estava uma mãe muito afflicta, sentada ao pé do berço do seu filho, com medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados. Respírava com difficuldade, e ás vezes tão profundamente, que parecia gemer; mas a mãe causava ainda mais lastima do que o pequenino moribundo.

N'isto bateram á porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha.

O pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns instantes, e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho começou a embalar a creança, e a mãe, pegando n'uma cadeira, sentou-se ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mãosinha descarnada e disse para o velho:

—Oh! Nosso Senhor não m'o hade levar! não é verdade?—

E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça d'uma maneira extranha, em ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de cabeça; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a tremer de frio.

—Que é isto! exclamou, lançando á volta de si o olhar hallucinado. O berço estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creança.

A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar.»

—Por onde foi ella? gritou a mãe. Dize-m'o pelo amor de Deus!»

—Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto. Mas só t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.

—Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me demores, porque quero encontrar o meu filho.—

A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou a cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais do que as palavras.

No fim disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.»

A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não sabia que direcção havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve cristallisada.

—Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe.

—Vi, respondeu o mattagal, mas não te ensino o caminho, senão com a condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»

E a mãe estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite d'inverno frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe angustiosa.

E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando, andando, até que chegou á margem d'um grande lago, onde não havia nem barcos, nem navios. Não estava sufficientemente gelado para se andar por elle, e era demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo, querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria talvez um milagre.

—Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus olhos são d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas á força de chorar, e levar-te-hei á estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a habitação da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro, é ella quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida d'uma creatura humana.»

—Oh! o que não darei eu, para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E apesar de ter já chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no mundo uma rainha.

O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua de comprido. De longe não se sabia se era uma construcção artistica ou uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada; tinha dado os seus olhos.

—Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou ella desesperada.

—A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?»

—Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso. Compadece-te de mim, e dize-me onde está o meu filho.»

—Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes, sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o que tens ainda de fazer?»

—Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim do mundo buscar o que tu quizeres.—«Fóra d'aqui não preciso de nada, respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos brancos.»—Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Ahi os tens, dou-t'os de boa vontade.»

E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e inteiramente brancos da velha.

Esta levou-a pela mão á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma vegetação maravilhosa.

Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam cobras asquerosas.

Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa, tomilho, ortelã e outras plantas humildes que representavam o genero de utilidade das pessoas que ellas symbolisavam.

Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlandia.

A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do coração, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as pulsações do coração do seu filho.

—É elle!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre a terra, parecia completamente estiolado.

—Não lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte vier, que não tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o seu consentimento.»

N'isto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte, que se approximava.

—Como é què deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda primeiro do que eu! Como o conseguiste?—«Sou mãe» respondeu ella.

E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.

Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de não ferir uma só das pequeninas petalas. Então a Morte soprou-lhe nas mãos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do que os ventos enregelados do inverno.

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